quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

32º dia [02/02/09] Pelo Pará

Levantamos muito animados. Tomamos banho e pegamos a estrada às 7h.
Porém, ainda sentimos muito as fotos que foram perdidas.
Mas que nada. Vamos seguindo felizes, muito porque estamos no caminho para casa. É uma emoção em diferente da ida. Principalmente no caminho a Natal, tudo era novo. Então o ânimo da viagem vinha da descoberta, das novas aventuras, de arrumar meios para superar os obstáculos. Agora, não há muitas dificuldades e as novidades já não são muito comuns. Conhecemos as paisagens (só o estado de Tocantins a gente ainda não tinha passado) e boa parte da estrada. Então, o que nos anima é a proximidade de casa. Mesmo estando há mais de 2.000km, já nos sentimos quase em casa. Ainda saboreamos a viagem, mas é muito bom voltar pra casa.

ALGUNS ACONTECIMENTOS DO TRECHO

Com o calendário, olhando que dia chegaremos em casa. Rodrigo pegou um calendário em espanhol e foi falando os dias da semana, a partir das iniciais do calendário: “lunes, martes, miércoles, jueves, viernes, sabadoles e domingoles”. Ok, ok, foi forçado, mas foi engaçado.

Num posto, um vendedor de lâmpadas de farol tentou negociar com o Tonho:
VENDEDOR: “olha, tenho uma lâmpada muito boa aqui, pro farol”
TONHO: “nós não viajamos de noite amigo”
VENDEDOR: “mas aumenta em 30% a luminosidade”
TONHO: “amigo, nós não viajamos de noite”
VENDEDOR: “vamos trocar os faróis”
TONHO: “amigo! Só viajamos de dia!” (o que o Tonho pensou em dizer não posso publicar).
Tem gente que não tem simancol (ou, como diria o Tiago, desconfiômetro. Não desconfia que não tá agradando).

PARADA EM IMPERATRIZ

Como sempre, os horários de alimentação são aleatórios: tomamos café às 10h e almoçamos às 15h, já em Imperatriz (MA), na casa da mãe do Johnson (que é da Coordenação Nacional da PJ). Ela já nos aguardava com o almoço pronto desde o meio-dia.
De bucho cheio, andamos meia quadra e fomos alojados numa casa da comunidade, ao lado da igreja.
Aproveitamos o tempo livre para lavar a roupa suja. Não era pouca. Afinal, há uma semana não lavávamos. Pena que, até que toda a roupa estava limpa, o Sol já estava sumindo. Logo deu um pancada de chuva e tivemos que transferir os varais para dentro.
Aproveitamos o raro momento de ócio para olhar a internet, armar a rede e deitar um pouco, tocar violão...
Banhados, fomos para a cada da família do Johnson, pra janta.

NOITADA COM O POVO IMPERATRIZNENSE

Voltando para nosso alojamento, transferimos novamente as roupas para o pátio, na esperança que o vento seque alguma coisa. Dali a pouco vieram alguns jovens da comunidade para partilhar a noite conosco (do grupo de jovens, da banda “Flor de Mandacaru” e da família do Johnson). Fizemos pipoca, mate-doce e eles nos compraram um gonócio super-gostoso chamado “guaraná da amazônia” (feito com açaí, guaraná, amendoim e outras coisas. Parece um milk-shake do Bob’s, mas muito mais gostoso).
Ficamos até meia-noite conversando, tocando violão e contando piadas. Surgiu até uma disputa cômica entre o povo do Maranhão, contando piadas de gaúcho, e o Tonho que, nascido no Rio Grande, improvisou umas piadas de maranhense para contra-atacar.
Muito nos alegrou a promessa do Hildo (que toca violão na banda Flor de Mandacaru) de cifrar as músicas que tão no CD deles e mandar pra gente. São músicas que não conhecíamos, bem legais para nossa caminhada de PJ.

PARADA EM SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA?

A Fabi (Gonçalves, de Rio do Sul), pelo MSN, sugeriu a gente parar em São Félix do Araguaia, conhecer D. Pedro Casaldáliga e a galeria dos mártires. Olhei a distância, e não fica tão fora de rota. O Tonho e a Lila se preocupam com o atraso de mais um dia. O Dani e a Iva ficaram interessados, assim como eu.
Vamos ver amanhã.

DORMIR

Fizemos assembléia para ver se deixaríamos a roupa secando ao vento o se recolheríamos, com medo de uma possível chuva. Para evitar a fadiga, e na esperança de que secassem, deixamos lá fora.
Enchemos os colchões infláveis e, pro Dani, armamos a rede. Fomos dormir perto da 1h, para acordar às 4h e pouco.

31º dia [01/02/09] Despedida de Belém. Nosso pior dia da viagem

Acordei às 6h. Tinha uns piás fumando e conversando (provavelmente não tinham dormido).
Não consegui mais dormir, pensando em tudo que perdi com o furto. Especialmente o registro da viagem (fotos e filmagens. Queríamos fazer um documentário depois, mas não vai mais dar) e dados pessoais (trabalhos de faculdade, coisas da PJ, projetos pessoais...).
Os demais kombatentes levantaram às 8 e pouco.
A Fran (da PJ do Paraná, que estava com a gente hospedada na Arleth esses dias) veio toda alegre fazer uma entrevista conosco, pra fazer uma matéria pra revista italiana da qual é correspondente. Mas, após contarmos o ocorrido ontem, e vendo nossa cara de velório, resolveu tentar fazer a matéria com base no blog. Pobre Fran, tava tão animada...
A Lila não estava muito bem. Desde ontem, tinha umas dores, provavelmente início de gripe. Levamos ela pra tenda dos bombeiros e tomou remédio.
Arrumamos as bagunças e zarpamos do acampamento. À tarde terá encerramento do Fórum, mas não sobrou motivação nenhuma para ficar por lá.
Fomos para um posto policial lá perto fazer o Boletim de Ocorrência. Foram muito gentis conosco, e fizemos o B.O. Mas provavelmente não dará em nada. É muito difícil achar o furtador.

DESPEDIDA DA ARLETH E FAMÍLIA

Nossa querida Arleth nos mandou mensagem no celular para almoçarmos lá. Fomos.
Nos revezávamos. Uns almoçavam e outros cuidavam a Kombi. Dizem que o bairro é perigoso. E cachorro mordido de cobra tem medo de minhoca...
Apesar da insistência do povo pra ficarmos mais um pouco (acho que gostaram da gente tanto quanto gostamos deles), fomos embora às 2 e pouco da tarde. Ainda precisávamos avançar uns 200km, pra amanhã chegar cedo em Imperatriz e tentar lavar a roupa.
Nos despedimos da família da Arleth: dela, mãe, irmãs, cunhados, sobrinha... E também da Ir. Adé.
Povo que há 10 dias nos acolheu e tão bem nos tratou. Que dividiu o que nem sempre era farto, mas sempre de coração. Povo amado, obrigadão! Somos muito gratos e não esqueceremos de vocês!

IDA TRISTE

Dessa vez, a Kombi não se encheu de alegria ao estarmos novamente na estrada. O caminho foi tão silencioso, tão melancólico...
Esse era meu medo: de que o furto fosse prejudicar nossa viagem de volta. Mas acho que conseguiremos recuperar nosso ânimo.
Eu ficava olhando o horizonte, pensando no que perdi, buscando razões para olhar pra frente e esquecer o passado.

POUSO NUM POSTO – PARTILHA DE VIDA

Com 200km rodados, já estava próximo de escurecer. Paramos num posto 24h, e achamos um espaço para armar uma barraca.
Felizmente, a Lila já estava melhor da gripe.
Fizemos janta (sopa de saquinho) e depois, pipoca e mate-doce. Sentamos numa roda e ficamos conversando.
Foi um dos melhores momentos da viagem, na minha opinião. Até porque retomou nosso ânimo, depois do pior dia da viagem. E pela cumplicidade mútua, intimidade, amizade entre nós 5.
Falamos sobre inúmeras coisas. Comentamos que, apesar do furto, continua sendo o melhor início de ano de nossas vidas. Discutimos sobre a maravilha do testemunho, pois acabamos inspirando muita gente, assim como nos inspiramos em outros na caminhada. Isso é legal, pois acreditamos que o testemunho vale mais que a teoria. Também conversamos sobre como é bom estarmos juntos, nós 5. Tem uma música do Oswaldo Montenegro que diz: “faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há 10 anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?”. Será que, daqui a 10 anos, ainda seremos tão bons amigos? Lembrei que, dos amigos que tenho hoje, quase nenhum eu conhecia 7 anos atrás, antes de entrar na PJ. A Lila acha que (e espero que isso aconteça) continuaremos bem amigos, pois nossos propósitos de vida nos deixam próximos. Sendo pejoteiros, permaneceremos unidos na amizade e na causa.

AVALIAÇÃO DO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL

Avaliamos o Fórum Social Mundial como bom, apesar de ter ficado aquém de nossas expectativas, principalmente no sentindo horizontal (partilha com outras pessoas, especialmente outros jovens). O Dani foi o que melhor interagiu com outros jovens de outras organizações: optou por não participar de alguns eventos e ficou conversando “por aí”. Interessante. Nós – os outros 4 – acabamos participando de mais eventos e tivemos menos interação com outros jovens.
Apesar de tudo, o FSM fortalece a esperança em “outro mundo possível”.
Nesse fórum, percebe-se que estava forte o debate sobre a crise financeira, resultado do neoliberalismo; fortes críticas a esse sistema; e o ecossocialismo, como alternativa.

3 NA BARRACA, 2 NA KOMBI. HUM...

Pra dormir, nos dividimos: 3 na barraca e 2 na Kombi. Ao invés do “mulheres prum lado, homens pro outro”, sempre optamos por misturar, até por uma questão de segurança. Até conversamos sobre o que muita gente deve pensar da gente. Talvez muitos pensem que nós, longe de casa, aproveitemos nossa liberdade de um jeito não muito católico. Devo dizer que somos muito comportados, e que nada acontece. Nossa amizade é muito forte, e nada além disso acontece entre nós. Não nos preocupamos com o que pensam da gente sobre isso. O que importa é o que somos e o que vivemos.

ORAÇÕES

Antes de dormir, é normal que cada um faça suas orações pessoais.
Normalmente uso esse tempo para agradecer a Deus pelo dia (pois geralmente meus dias são muito bons). Ontem, porém, usei para pedir. Pedi a Deus força, força para esquecer o passado e olhar para frente. Hoje, agradeci a Deus por ter me dado esses 4 amigos maravilhosos, que hoje me trouxeram de volta a alegria e a tranqüilidade. Já não importa mais tanto a perda que tive. Claro que sinto, mas já sofrendo bem menos. E é com os outros me ajudando que isso acontece.

Amyr Kling - Lucas

Meu ex-colega de banco Lucas nos enviou essa mensagem, bem inspiradora.
Valeu, garoto!

"Hoje entendo meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si mesmo, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar a arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. Não há como admirar um homem – Costeau, ao comentar o sucesso do seu primeiro grande filme: “Não adianta, não serve para nada, é preciso ir ver”. Il fault aller voir. Pura verdade, o mundo da TV é lindo, mas serve para pouca coisa. É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo."

Trecho do livro Mar Sem Fim, de Amyr Klink

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

30º dia [31/01/09] 4º dia no FSM – Tribunal Popular, Betto, Comblin, Assembléia da Juventude, 50 anos de Cuba...

Pro café, comemos um pão com chimia, com um todinho-com-água-fria-e-leite-em-pó (segundo a Lila, extremamente sem-graça).
Logo após, a Daia (da PJ de Quilombo) fez uma entrevista conosco, para a rádio comunitária que ela trabalha, de lá.

TRIBUNAL POPULAR INTERNACIONAL

Na primeira atividade da manhã, participamos do Tribunal Popular Internacional, num julgamento simbólico contra a Criminalização dos Movimentos Sociais.
Foi bem bacana. Vários representantes de, várias organizações, deram seu depoimento. Gente da CPT, CIMI, povos indígenas, sindicatos, MAB...
É de se espantar – e de se indignar – com a perseguição que as pessoas sofrem por defender causas que vão contra o sistema dominante. Gente ameaçada de morte, com casa queimada, incriminada... Tem que ter coragem pra mesmo assim seguir lutando. Inspirador.

EDUARDO GALEANO? EMIR SADER?

Saímos antes do fim do tribunal para ir para a UFPA, na tentativa de ver a palestra de Eduardo Galeano (grande escritor uruguaio, referência para a esquerda. Autor de “Veias abertas da América Latina”).
Chegando no auditório programado, nada. Tinha outro evento. Orientaram a gente ir no centro de informações pedir. Caminhamos o campus todo pra chegar lá, e descobrir que o cara não viria. Merda, era bom demais para ser verdade...
Segunda opção: Emir Sader, professor da USP, grande referência para a esquerda brasileira. Chegando lá, tava superlotado. Tinha repórter na porta com o braço erguido para conseguir gravar a voz. Não dava pra ver nada. Desistimos. Estávamos o Tonho, a Iva, a Lilá, a Tábata e eu. O Dani ficou na UFRA.
A Lila foi no banheiro e tinha uma mulher trancada lá. Com seu inseparável canivete, a Lila deu uma de McGyver e abriu a porta. Oh, heroína!! :D
Ouvimos dizer que tinha uma palestra com o Boff naquela hora. E era ali perto. Fomos pra lá. Mas não era com o Boff, mas com o Betto, juntamente com José Comblin e outros 2, falando sobre Cuba e a Igreja.
Chegamos quando o Frei Betto estava terminando sua fala. E os demais falaram em espanhol. Deu pra aproveitar um pouco, mas tava meio desconfortável (quente e sentados no chão).
Legal que eles falaram que, hoje, os bispos não querem mais a volta do capitalismo, embora tenham críticas ao sistema atual. Mas querem continuar no socialismo.

ASSEMBLÉIA DA JUVENTUDE DO CAMPO E DA CIDADE

De lá, pegamos um busão pra UFRA e caminhamos para o NPI, pro Acampamento da Via, onde arecém tinha começado a Assembléia da Juventude do Campo e da Cidade, iniciativa da juventude da Consulta Popular de lá (quem convidou a gente foi um povo da PJ do Pará).
Teve umas falas de jovens de diferentes organizações: Consulta Popular, Levante da Juventude (RS) e MPA.
Algumas falas: “Nossa juventude foi a geração mais afetada pelo neoliberalismo”. “Nossa juventude não pode perder a capacidade de criar processos inovadores”.
E um grito de ordem que não conhecíamos: “Tombaram Che, tombaram Marighella. Só não tombaram a luta porque somos parte dela”.
Foi um momento bacana, diferente. Pena que muitos jovens não se interessaram e saíram durante. Talvez o debate foi muito avançado pra juventude que lá estava. E não teve espaço de grupos. Mas boa a iniciativa.

DESPEDIDA DO POVO QUE VEIO COM O CIMI

Voltando pro nosso acampamento, ajudamos o povo que veio com o CIMI (Solange, Daia, Xarope e João) carregar as malas até o busão deles, e nos despedimos, porque foram hoje.

50 ANOS DA REVOLUÇÃO CUBANA

Voltamos pro NPI, onde aconteceu a comemoração dos 50 anos da Revolução Cubana. Teve mística, fala da filha do Che, João Pedro Stédile... E, pra fechar, rasta-pé com música cubana! Não lembro o nome do ritmo, mas é tipo uma salsa. Demos uma enrolada em nossos pés, misturamos com xote e fomos pra pista! Não ficou muito bonito, mas deu pra se divertir.

MERDA, FURTARAM NOSSAS COISAS

Voltando ao acampamento, notei que a porta do lado do motorista estava destrancada. Demos falta, então, do notebook, câmera digital e duns pila (mais detalhes, vide postagem anterior). Foi foda. Revoltante.
Foi difícil dormir. Mas, com o apoio dos Kombatentes, a gente encontra forças pra seguir adiante.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

29º dia [30/01/09] 3º dia no FSM: Boaventura, protesto, filha do Che...

Não foi tão fácil dormir bem hoje. De modo geral, acordamos algumas vezes na madrugada, pois tinha um povo ali do lado que ficou a noite inteira acordado, tocando violão e fumando maconha. Por falar na maconha, já estamos nos acostumando com o cheiro, de tanto que tem aqui. De manhã, enquanto tomávamos nosso Toddy (ou melhor, água com Toddy e leite em pó), lembramos do Clemildo: quando dormimos na casa dele, em Brasília, ele disse que uma vez foram pro Fórum Social Mundial em Porto Alegre e, à noite, no acampamento da juventude, um monte de gente fumando maconha e o povo da PJ, dentro da barraca, tomando leite. Huahaha. Ainda bem que, nesse ponto, somos diferentes da juventude que lá estava.

BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS

Na primeira atividade da manhã, nos dividimos. A maioria foi pra palestra com um tal de Boaventura de Souza Santos (um escritor português que é bem famoso, mas eu não conhecia. A Lila e o Tonho conheciam). A Iva e eu fomos noutro mas, lá chegando, descobrimos que seria numa língua estrangeira, e a Iva tava sem identidade. Daí eles não davam o aparelhozinho de recepção da tradução. Daí fomos juntos com os outros.
Lá com o Boaventura era um painel com o tema: “Diversidade e mudanças civilizatórias: a utopia do século XXI”. Tinha outros 3 caras que falaram. Um do Peru, outro da Venezuela e uma mulher de não lembro qual país. Mas a melhor fala foi mesmo a do Boaventura. Alguns recortes da fala dele:
- a solução para a crise, para eles (capitalistas), obivamente, é mais capitalismo;
- o capitalismo não sabe ver a longo prazo;
- a teoria não deve vir à frente nesse momento, mas vir atrás, porque a prática é mais transformadora que a teoria;
- aprendemos o conceito de comunidade: ninguém pode ganhar se o outro não ganhar;
- a crise trouxe de volta o papel do estado na economia. Por 30 anos, o estado era visto como problema;
- temos que aproveitar esse momento de desestruturação do neoliberalismo para propor alternativas;
- uma janela se abriu. Mas pode se fechar se ficarmos com a cabeça no século XX e nos confortos que ele trouxe;
- temos que evoluir da visão de estado para a visão de “autoridade coletiva”;
- há muitas formas de organização, fora dos partidos e sindicatos. O desafio é formar redes.

POVOS INDÍGENAS

À tarde, participamos da mesa “Territorialidade dos povos indígenas”. Lá falou-se sobre os 4 tipos de latifúndio que imperam hoje no Brasil: latifúndio da terra, do capital, das comunicações e do saber (este centrado nas universidades).
Alguns índios fizeram falas e também um povo do CIMI (Conselho Indigenista Missionário, ligado à Igreja). Destaque para o presidente do CIMI, D. Erwin, que corre risco de vida, devido à perseguição de latifundiários, por causa da luta a favor da demarcação de terras indígenas. Tem que andar constantemente com 2 policiais pra sua defesa.
Uma frase de um líder maia que trouxeram presente: “Nós não queremos viver melhor. Queremos viver bem”.

PROTESTO CONTRA USINA DE BELO MONTE

Meio que repentinamente, um povo da PJ nos chamou, dizendo que a Eletronorte estaria realizando, às 18h30, uma oficina defendendo a construção da usina de Belo Monte e estavam indo fazer um protesto lá. Atendemos o convite e fomos junto.
Esta usina está projetada para ser construída no Rio Xingu, o que atingirá várias comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas e causará um grande impacto ambiental (imagine, é na Amazônia...). E o pior que não é pra servir as necessidades de quem está carente, mas para servir ao conforto desnecessários das pessoas e para grandes empresas.
Ficamos na frente da sala onde ia acontecer o evento da Eletronorte. Estávamos em poucos, não chegava a 20, entre índios, mulheres e pejoteiros. De repente, as mulheres, corajosas, começaram, falando que estávamos contra a barragem, explicando porque, e iniciaram o grito “A E I O U / Não queremos barragem no Xingu”. Não é muito criativo, mas com efeito. Ajudamos a engrossar o grito. Aos poucos, mais gente foi chegando ajudar, e chamou a atenção de vários repórteres, que começaram a filmar e fotografar. Os índios fizeram umas danças simples, e umas falas. Cara, foi muito marcante. Um deles, ao fim da fala, disse “nós, índios, estamos preparados para dar nosso sangue pelo Xingu”. Foi arrepiante.
Depois, puxamos uns gritos que aprendemos em SC, com o povo do MAB: “Água e energia, não são mercadoria” e “Águas para a vida, não para a morte”. D. Erwin também veio e fez uma fala (nessa hora o espaço já estava cheio).
Não ficamos para a oficina. O objetivo era chamar atenção para essa questão e conseguiu-se.
Peguei um folder deles, que mostrava o aumento da demanda energética no Brasil até 2017, bem como o crescimento populacional, justificando assim a necessidade de mais barragens. Num cálculo simples no celular, concluí que o consumo per capita crescerá, em 10 anos, de 2,15 para 2,96, ou seja, 37%. E não é suficiente fazer campanhas do tipo “desligue a luz quando sair do quarto”, pois os maiores consumidores de energia são as indústrias, especialmente as pesadas (metal, alumínio...). Pra suprir o carro novo, a TV no quarto, as exportações... Tem que mudar o foco: diminuir o consumo, pois a natureza não agüenta. Maldito capitalismo...

RODA DE CARIMBÓ

Na saída, como estava chovendo, o povo ficou se protegendo perto da porta. Tinha um padre com um pequeno bumbo e, num instante, surgiu uma roda de carimbó (ritmo típico de lá). É muito legal a facilidade que eles se juntam e a alegria começa.
Por lá, conversei com um rapaz sueco que está há 3 meses no Brasil, atuando numa ONG. Bem bacana essa troca de experiências. Fiquei sabendo que lá há pouca presença das religiões, e que Che é bem querido pela juventude.

BRASIL DE FATO, 6 ANOS

À noite, fomos até o Acampamento da Via Campesina, pra comemoração dos 6 anos do jornal Brasil de Fato. É um jornal sensacional, semanal, referência na mídia alternativa no Brasil. Traz uma visão crítica, de esquerda, que contrapõe às fontes de mídia normais. Mais detalhes no site:
www.brasildefato.com.br.
Entre os presentes que falaram na solenidade, alguns representantes de mídias alternativas internacionais, João Pedro Stédile (do MST) e Leila Guevara (filha do Che). Foi bacana. A filha do Che não é ele, a fala é mais amena, mas foi bom também.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

28º dia [29/01/09] 2º dia no FSM – Frei Betto, Greenpeace e presidentes

No início da manhã, refletimos novamente sobre mudar ou não pro acampamento da Via Campesina (porque lá a juventude é mais consciente, e também por questões de segurança). Mas, ao fim, optamos por ficar onde estávamos mesmo, pois daria muito trabalho mudar, e também tem o povo nosso que veio com o CIMI, e pra eles fica mais fácil ali onde estávamos (mais perto da tenda do CIMI).

PALESTRA FREI BETTO

Pegamos um busão e fomos para a UFPA, para a palestra do Frei Betto. Chegamos no auditorizinho que estava programado (não cabiam 50 pessoas lá dentro). Logo vieram avisar que, em função do espaço, foi transferido para outro auditório, um pouco maior. Chegando lá, o negócio tava fervendo: tinha gente além da porta, já não conseguíamos entrar, de superlotado. Como havia vários lá fora, o povo começou a protestar, pedindo um lugar maior. Dali a pouco gritavam “cadê o outro mundo? cadê o outro mundo?” e em seguida, pediram pra ser no palco (“palco, palco, palco...”). Eu já estava disposto a buscar outra palestra pra participar, quando Frei Betto chegou, falando que ia conversar com a organização. Em uns 2 minutos, já nos dirigíamos ao palco. Bem curioso isso: uma palestra no palco.
Alguns trechos da palestra do Betto:
- “tem militância de esquerda que é militonta: participa do Fórum, central sindical, movimento popular... mas não planta nada que tenha raiz. Se gaba de ser muito atuante, mas dê a ela uma fatia do poder pra ver quem ela é”;
- o problema (da destruição ambiental) é que separamos o que nunca esteve separado: o ser humano e natureza;
- há muitos católicos que não são cristãos e muitos cristão que não são humanos;
- todos nós temos 2 problemas: defeito de fabricação e prazo de validade;
- elegemos os governantes e pensamos que o governo é como uma grande vaca, com uma teta para cada um. Mas, na verdade, governo é como feijão: só funciona com pressão;
- é preciso fortalecer o trabalho de base dos movimentos populares, pelo método Paulo Freire.
Após a palestra, nos juntamos à pequena multidão que rodeou Frei Betto para pegar autógrafo nos livros que compramos dele, especialmente no que daremos de presente à Arleth.

ALMOÇO

Almoçamos por lá. Encontramos uma barraquinha que vendia um prato de arroz, batatinha e outras potcharecas por R$ 3.

CADÊ A OFICINA QUE ERA PRA ESTAR AQUI?

Ao meio-dia já estávamos almoçados e prontos para a atividade das 12h. Cada um foi para uma oficina diferente. Quer dizer, tentou ir, pois só a que o Tonho participou efetivamente aconteceu. As demais tinham sido canceladas (algo comum aqui no Fórum: cancelamento ou transferência de local de atividades).
A Iva e eu, aproveitando o tempo vago, demos uma volta pela UFPA. Planejamos em quais atividades vamos amanhã, tomamos água (algo “extremamente necessário” aqui em Belém, considerando o Sol escaldante), acessamos um pouco da internet (tinha uma tendona com net grátis) e passeamos um pouco. Encontramos um egípcio distribuindo cartazes de protesto contra o genocídio do povo palestino. Peguei 4 cartazes e o e-mail dele.

OFICINA DO GREENPEACE

À meia-tarde, fomos participar da oficina [R]evolução Energética, organizada pelo Greenpeace. A sala era pequena e os interessados, muitos. Pra variar, sentamos no chão (e isso que chegamos 10 minutos antes de começar). Mas tamo acostumado...
O cara do Greenpeace falou sobre a geração de energia e seus impactos. Então apresentou a proposta da organização para suprir essa necessidade crescente no Brasil com fontes limpas (solar e eólica, especialmente). Fizeram estudos detalhados do potencial brasileiro de geração nestas fontes, a maioria a ser explorado (já que o modelo brasileiro é hidro-térmico: usinas hidroelétricas e, quando o nível está baixo, usinas térmicas).
No momento que abriram para participações, fiz uma pergunta mais ou menos assim: “Considerando que a demanda por energia crescerá muito mais do que a população (mais consumo per capita), e sabendo que esse aumento é conseqüência do modelo consumista vigente na sociedade, resultado do sistema capitalista, pergunto: o Greenpeace acredita numa sociedade sustentável dentro do capitalismo?”. O cara gaguejou, enrolou, reconheceu que é preciso diminuir o consumo, mas não respondeu diretamente à pergunta. Na verdade, eu sabia que ele não ia responder, pois o Greenpeace oferece alternativas para a questão ambiental, mas não faz uma discussão da estrutura da sociedade. Mas perguntei para incentivar a reflexão dos presentes.

DANIEL FOI VER OS PRESIDENTES

Demos uma volta nas barracas da UFPA e, depois de nos desencontramos por quase uma hora, voltamos de busão pro acampamento. descobrimos que o Dani tinha ido para um local chamado Hangar, aqui em Belém, onde aconteceu um momento com 5 presidentes latino-americanos: Lula, Huo Chávez, Evo Morales, Fernando Lugo e Rafael Corrêa. Todos pensávamos que seria restrito, mas na verdade era aberto. Fiquei com pena de não ter ido, mas que bom que pelo menos o Dani conseguiu ir (tudo bem que ficou 2h30 na fila, mas conseguiu :D).

CONVERSA COM LILA

Antes de dormir, ficamos trocando umas idéias, a Lila e eu. Ela falou que, se fosse olhar pelo lado financeiro, não teria condições de vir pra viagem. Mas pensou: “essa é uma oportunidade única em minha vida” (e de fato é). Assim, todos na família juntaram forças e ela conseguiu vir. Relembramos da fala da Marina Silva, quando disse que a juventude não é pragmática, do contrário muita coisa não aconteceria.

LIÇÕES DO DIA

Dos acontecimentos de hoje, refletindo, dá pra tirar 2 lições:
1ª) A luta funciona. O exemplo da palestra do Frei Betto: se todos tivessem se resignado e ido atrás de outra oficina (como eu tava querendo). Mas o povo, protestando, conseguiu que todos pudessem participar;
2ª) É preciso ir atrás das coisas, ser metido muitas vezes. Isso a gente usou várias vezes na viagem. E hoje, por exemplo: o Dani foi pro momento com os presidentes porque, mesmo que uns disseram que era fechado, outros disseram que não. Nós sabíamos que ia acontecer, mas nos contentamos com a explicação que seria fechado, e não fomos... :(
Vivendo e aprendendo...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Pior momento da viagem: fomos furtados

Ontem à noite, após retornamos da atividade de 50 anos da revolução cubana (no acampamento da Via Campesina), uma desagradável surpresa: alguém conseguiu abrir a porta da Kombi (pela janelinha) e roubou meu notebook, câmera digital e uns R$ 130 em dinheiro.
Ficamos muito abalados e tristes pelo acontecido. Não sei se fiquei mais triste pelos aproximadamente R$ 3.000 de prejuízo ou se pelos dados que perdi com o notebook (incluindo todas as milhares de fotos que tiramos pela viagem).
Procuramos alguns policiais que estavam por lá para fazer o Boletim de Ocorrência, mas para isso era preciso ir ao posto policial na UFPA (longinho). Fomos lá hoje cedo.
Foi, certamente, o pior momento da viagem até agora. Deu um desânimo geral. Mas são coisas que acontecem, e sabíamos que haviam riscos.
O desafio agora é não ficar remoendo o que ficou para trás e olhar para frente. Assim como a Fênix, buscar ressurgir a partir das cinzas, e continuar vivendo o restante da viagem magnífica que ainda temos pela frente.
O mais importante é que todos estamos bem e, como sempre, muito unidos. Vamos nos ajudando e, sabendo também do apoio que temos de tantos amigos de todo o Brasil, certamente superaremos os desafios que vêm pela frente.
A todos que nos acompanham: não se preocupem conosco. Estamos bem. A tristeza passa.

Um forte abraço, e assim que possível atualizaremos os outros dias do blog (so sem foto, hehe).

"Embora nenhum de nós possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." (Chico Xavier)